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sábado, 14 de julho de 2012

A menina que não tinha pulsos


Guarda os pulsos pro final
Saída de emergência
(Pitty)

A menina sempre se achou estranha
Era estranha: a white freak (só descobri isso depois)
Era bela, cabelos pretos e tudo!
Olhos sempre maquiados, só os olhos muito maquiados
Mas mesmo assim era estranha
Sempre andava com um blusão preto parecendo uma camisa de força que unia os seus dois braços.

Só descobri depois...
Ela era a famosa menina que não tinha pulsos
Seus braços só existiam até o cotovelo
Suas mãos saiam dos cotovelos
Sem pulsos
Realmente uma aberração, um erro da natureza
Era bela a menina que não tinha pulsos

Mas um dia ela encontrou o amor
Um amor de 16 anos
E percebeu nesse dia que seu antebraço começou a brotar
A cada dia suas mãos se distanciavam mais e mais de seus cotovelos
Até que deixou de ser a estranha
Deixou de ser a menina que não tinha pulsos
Era a menina que tinha encontrado o amor e com ele os pulsos

Um dia o amor foi muito mal para a menina que tinha encontrado o amor
E ela passou a ser a menina que chorava e tinha pulsos

Ontem (última vez que vi a menina que chorava e tinha pulsos), encontrei-a deitada na neve sem blusão (já não usava mais o blusão)
Ela não vestia nada
O cenário só não era preto e branco por conta das gotas de sangue que saiam dos seus pulsos
E apesar de estar quase morta, foi aí que ela compreendeu porque junto com o amor tinham surgido os pulsos

sexta-feira, 30 de março de 2012

A coisa


Cuidado com a coisa
coisando por aí.
A coisa coisa sempre
e também coisa por aqui.
(Renato Russo)

            Aquela coisa ainda está aqui. Ela pulsa feito o tudo, ela irrita feito o nada (feito o tudo que, exatamente por ser tudo, se porta feito fosse nada). E o pior é que dói. O foda é que é uma dor que não incomoda muito; e exatamente por não incomodar muito eu deixo pra lá, não ligo, não me importo, não procuro um médico, ou uma benzedeira, ou coisa que o valha. Fico aqui... e lá... e sempre com a mesma dor que incomoda apenas pelo fato de não incomodar. Se pelo menos me fizesse sofrer, gritar, chorar, mas não, essa porcaria de dor não serve pra nada. Fico imaginando o quão bom seria sentir esta dor se ela fosse dor lasciva, dor que faz o olho chorar de algo muito parecido com alegria, dor de gozo... 

Porra! A música que estou ouvindo agora cortou o meu raciocínio e por um momento (isso acontece sempre) a dor pareceu nem existir. Fico me perguntando agora pelos violinos. Cadê os violinos? Como é que uma banda com o nome “Violins” não tem um violino tocando? 

E acho que é isso, a dor só existe quando estou falando, pensando, vivendo (n)ela. A dor é uma coisa.

segunda-feira, 28 de março de 2011

"Um pouco do resto"

à C.C.
           
            Ficava naquele impasse “eu quero, mas será que ela vai querer, será que eu vou conseguir e se a raiva me inibir e se meu pau não subir e se ela não ficar molhada” esses e milhares de outros e se... pesavam na minha cabeça.
            Minha vontade era simples, instintiva, natural até, só queria chegar passar a mão pela nuca dela, enfiá-la pelos seus cabelos e puxá-los ao mesmo tempo em que o beijo iminente consolidasse a ausência do resto do mundo.
            Eu confiava que ela iria querer, confiava no meu taco, sabia que seria impossível ela me rejeitar, sei que ela se excita até com a minha voz ao telefone, sei que ela se masturba pensando em mim, mas... não sei... mesmo eu tendo todas essas convicções temia que algo não saísse como eu queria, temia que eu não conseguisse, temia decepcioná-la, temia não fazê-la gozar.
            Se todas as mulheres pensarem como a Clarissa (aquela que é amiga da Maria), significa que eu sou o homem dos sonhos de toda mulher: não sou o último dos românticos, mas também não sou nenhum brutamontes, sou poeta, mas jamais citei um verso antes de uma transa, nunca mandei flores, gosto de morder, de dar tapas, mas nunca deixo uma marquinha sequer, sei que existe a hora dos sussurros, dos gemidos, mas sei exatamente a hora que tenho que gritar, que chamar de vadia, safada, puta, a hora de pedir pra gozar. Pois é... mesmo assim eu temia.
            Quando passou aquela fase de hesitação, tomei coragem e fui... ela tava linda; aquele ar de mulherão, mas aquela mesma infantilidade de sempre: “menina mulher”, como diria o poeta. Entrei. Sentei no sofá. Ela, sentada no braço do outro sofá, acendeu um cigarro e, como sabe que eu não fumo, me ofereceu cerveja: “pode deixar que eu me sirvo”. Tomei o primeiro copo de um só gole, depois de dez minutos de conversa, ela já havia fumado três cigarros e eu nada de tomar a atitude que planejara. O clima de repente ficou insuportável, um silêncio chato, absurdo. Baixei a cabeça pra encher novamente o meu copo, quando levantei a vista ela já estava tirando o vestido, que caíra ao seus pés, a menina mulher agora era só mulher o meu medo de não conseguir se fora, meu pau instantaneamente ficou duro, ou como diria Clarissa: “Duro, não beeeeeeem duro”.
            Sexo não é improviso, fiz como planejei: a mão esquerda na nuca a arrancar-lhe os cabelos, a direita cravada na bunda, ela já de joelhos baixando minha bermuda sem tirar a cueca, apenas tirando o pau de lado (como faço com ela, as vezes) como quem brinca com brinquedo novo, ela chupa, e olha pra mim como quem diz: “Decifra-me ou te devoro”. Bruscamente ela me empurra, levita até o quarto, deita, sua masturbação é o convite... o convite que eu aceito deixando-a completamente desnuda...
            E o fim todos sabem: não precisa contar mais que “Um pouco do resto”.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O poema que sempre (nunca) quis escrever

Pensei em escrever um poema que fosse algo grande, grande e insuportável ao mesmo tempo, que as pessoas jamais conseguissem conter as lágrimas ao lê-lo, que fizesse paralisar em sentidos até os desamantes de poesia, os leigos, os analfabetos, todos os vertebrados e invertebrados da terra...

Por muito tempo, tentei, tentei, tentei... e tentei milhões, bilhões, trilhões, zilhões de vezes, mas esse poema não saia...

E depois de muito viver, de muito sofrer, de muito chorar, de muito gritar, de muito morrer... Acho que consegui esboçar em meus neurônios tão insuportável poema... mas o medo de meu próprio poema, desse poema que tanto tentei escrever, me faz hesitar, me faz tremer, me faz não querer escrevê-lo... mesmo assim não tenho domínio sobre minhas mãos, elas insistem em guiar-me para o inferno que será escrever esse poema, não quero escrevê-lo pois temo que ele não tenha o esperado efeito sobre as pessoas (uma lágrima rola em meu rosto e toca e molha o papel), temo que para alguns ele soe cômico, seria demais (licença Machado) desgraçado leitor, se tu ristes de meu poema, desse poema que já não quero mais escrever, mas mesmo assim escreverei... depois dos dois pontos e entre aspas, derramarei sobre voz o sangue do meu poema/filho que ao escrevê-lo deixará de ser meu e amargurará a vida de todos que o tomarem para si, então, eis o meu maldito poema:

“SOLIDÃO”

terça-feira, 15 de março de 2011

Transtorno Obsessivo Compulsivo


Meio tonto de vez em quando eu olhava pros lados sem saber muito bem pra quê ou pra quem eu estava realmente olhando. Éh! É isso mesmo. Estava só olhando rapidamente pra um lado e depois pro outro como se a todo o momento eu estivesse prestes a atravessar uma rua.
            Na calçada que passava naquela hora topei com dois homens estranhos, até bem mais que eu, um aparentava ser um cientista algo como um químico ou um físico sei lá, já o outro estava sem sombras de dúvidas muito chapado, como se tivesse misturado uísque com maconha ou coisa parecida. Eles falavam muito e muito alto um com o outro e isso me tomou de curiosidade pra saber o que eles discutiam, sem hesitar dei meia volta e segui-os rua abaixo. A essa altura já não tava tão tonto quanto antes, mas não conseguia parar de olhar para os lados insistentemente quase como um louco sem conseguir ter controle, como se eu fosse um relógio insistindo naquele tic-tac, pelos menos pra minha consciência, sem motivo algum.
            Dobraram por uma ruela estreita, aparentemente sem saída, pararam em frente a um prédio bem antigo, “entre, senhor!”, “ah! vai tomar no cú! eu entro se eu quiser caralho!” Sentaram nuns banquinhos de madeira e começaram a jogar damas, mas quando cheguei mais perto foi que percebi que eles, na verdade, jogavam xadrez. O bêbado pediu desculpas ao nerd que usava uns óculos tão estranho quanto o dono. Agora eles falavam baixo um com o outro, o ambiente em que se encontravam não permitia qualquer ruído que atrapalhasse a concentração dos outros que estavam ali pra trabalhar, alguns com o notebook aberto sobre as mesas de xadrez, outros reunidos em grupos de três ou quatro discutindo coisas que pareciam um plano secreto pra destruir o mundo ou a casa do vizinho talvez. Mas mesmo falando baixinho dava perfeitamente pra ouvir o que eles diziam: “A saúde pública desse pais é mesmo um descaso, cara!” exclamou o bêbado com a voz embargada, nesse momento entrou no prédio um homem puxando uma caixa cheia de livros, o que me impediu de ouvir parte da conversa, quando o barulho cessou, me levantei, olhei pra um lado, depois pro outro e fui, olhando sempre pros lados, fui e me sentei num banquinho bem mais próximo deles, fiquei a menos de um metro das costas do nerd, e agora sim mesmo que o teto desabasse sob nossas cabeças, enquanto eles estivessem conversando, eu ouviria até o roncar da barriga deles. “logo ela, cara, pô! por que não levaram outro qualquer, tivesse me lavado, pronto tivesse ido eu seja pro céu ou pro inferno, mas tivesse ido eu!” “Mas ela num ia só fazer uns exames clínicos, inerentes ainda ao período pré-cirúrgico?” “Era, mas o médico disse que não ganhava pra atender urgência e ele era o único que tava disponível no hospital inteiro daí ela deu um troço lá, sentiu umas dores e disse que tinha um gato querendo sair pelo umbigo dela, a enfermeira chamou o médico e ele disse que num ganhava pra atender urgência e tinha que tá na clínica particular do irmão dele em uma hora e foi embora. Aquele filho da puta vai pagar pelo que fez, pô! ela podia ter morrido do mesmo jeito, mas ele tivesse pelo menos tentado fazer alguma coisa, num custava nada, ele era médico da área. Já a enfermeira não, aquela menina que parecia ser só uma estagiária, aluna da faculdade de enfermagem ou coisa assim, num importa, ela sim, fez de tudo: conseguiu o número de uma otorrinolaringologista que era o único médico pertencente ao quadro do hospital que morava na cidade, mas coitada da Doutora, chorou e tudo, mas apesar do esforço, não tinha muito o que fazer, porra! ela era otorrino, minha filha tava com uns problemas na vesícula, num tinha nada a ver com a área dela.”
            Só naquela hora, depois de enes e enes cogitações, descobri que se tratava da filha dele, imaginei que fosse a esposa ou a mãe, pois ele aparentava ser muito novo pra ter uma filha que sofresse com problemas na vesícula (idiotice minha achar que só velho tivesse problemas na vesícula, depois descobri o que a princípio deveria ser muito óbvio, mas o idiota aqui, nunca tinha parado pra pensar, que pra ter problemas na vesícula só era necessário ter uma vesícula).
            Tive raiva da minha curiosidade que me levou até aquele prédio cheio de idiotas pra ouvir um bêbado dizer a um nerd, ao mesmo tempo em que jogavam xadrez, que a saúde pública do país era um descaso pelo fato da sua filha ter sofrido negligencia médica e consequentemente, ou não, ter morrido no leito de um hospital qualquer, apesar de nesses tipos de casos eu achar que mais do que negligência médica, houve negligencia do sistema que pagou mal àquele médico, o que segundo ele (o bêbado) foi o que o (médico) levou a não atender a menina, ou moça, ou mulher, já não faço a mínima idéia de quantos anos aquele homem bêbado tinha, muito menos a idade de sua filha que eu nunca vi e nem verei pelo simples fato de ela agora estar morta e enterrada, mesmo que eu fique a eternidade com esse TOC de olhar pra um lado e depois pro outro feito um louco.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Noite


Eu não conhecia aquela mulher que passou, mesmo depois de já ter conversado com ela, ido em sua casa e tê-la visto antes tantas e tantas vezes. Não, aquela eu não conhecia ainda, sei que já havia beijado-a em uma noite qualquer em uma festa qualquer em um lugar qualquer em um lugar comum, mas aquela daquela noite eu nunca nem sequer tinha visto. Era uma espécie de macacão preto que cobria a noite de sua pele, é isso ela se veste de noite toda vez que fazemos amor, uma noite faminta que devora... só devora... e devora mais ainda. Mas... com a daquela noite... tudo era sentidos: Um olfato para o perfume da primavera de uma única Flor. Uma audição para sussurros... ah!... ah!... ah!... parecem anjos... Um paladar carnívoro que lambe que morde... que come. E uma visão... uma visão para o noturno escuro de nós dois e por fim... o tato para todo o resto... cabelos mãos pés bunda e que todos os sentidos sejam para a noite. Assim como fomos. Fomos para a noite a própria noite, uma noite que demorou pra morrer e que tinha um cenário no mínimo excêntrico, um ônibus velho transformando a rua em beco, um bêbado caído uma esposa gritando, mas mesmo assim uma mão que tinha vida e teria mesmo que não tivesse um corpo para te guiar, aliás, quatro mãos, as quatro mãos da noite, sôfregas em busca de um tesouro que só o outro possuía, e um tesouro que à primeira (im)pressão não era suficiente, frustrante eu diria, mas que com o passar do tempo teve suas relíquias hipervalorizadas, mas aquela noite com aquela mulher(noite) acabou antes de terminar... foram só sentidos, brandos, sem ápice. O ápice demorou. A de hoje, mesmo sendo a mesma, não é mais a mesma, mas continua a mesma(noite). As noites depois daquela foram só ápices, sentidos por todos os sentidos, todas as noites mesmo quando não é noite foram noites, todas com o pigmento daquela lactose eterna que caracteriza os ápices(gozos). A noite é o grito e o gemido se fundindo em forma de dois, em forma de nós dois.

quarta-feira, 2 de março de 2011

...

Aquela dose parecia mais quente que as outras mais forte com mais álcool com álcool destilado por anjos. Aquele trago então... Bebi Rimbaud... Fumei Capitu. Na rua todos me olhavam diferente, o rapaz que passou parecia banhado em libido, a menina parecia feita de cheiro de gosto de gozo. Parecia que todos acabaram de sair do Éden... de um Éden povoado por mil serpentes... ao entrar em casa pensei estar entrando nas tendas de Salomão... no calendário todos os dias marcavam carnaval o feriado das divinas putarias dos gozos permitidos... abrindo a porta do que antes era meu quarto deusas e deuses despidos convidavam-me para o eterno regalo gozoso... na cozinha ninfas ensaiavam o balé de Eros... quando dou por mim o peso de mil Afrodites me esmaga contra o chão de plumas, sequer me vejo, cego só ouço o cântico dos cânticos só sinto o tatear fogoso de Vênus o cheiro do mel invisível e a doce dor das mordidas que agora começam a me devorar... minha língua já era... meu coração dispara bombeando todo o sangue do mundo para o pulsar do meu baixo-ventre...  me mordem, me rasgam, dilaceram-me as mil cadelas possuídas pelos mais indecorosos demônios do paraíso... no meu paraíso... sinto... sinto... sinto... agora o verdadeiro e único prazer... o prazer do aniquilamento... aniquilamento da morte... da minha morte... morte lasciva... morte viva... Em nome da mãe... da filha... e desse espírito santo... GOZEI.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Onírico ou O Útero e a Tempestade


A tempestade não passava, era estranho, um medo me causava uma eterna e horrível sensação de frio na espinha, como se meu útero fosse sair pela boca a qualquer momento, como agora, meu útero é amarelo com um líquido azul claro escorrendo de um orifício qualquer, se esvaindo pelos meus dedos, que, aliás, não parecem nada com os dedos que carregava pregado as minhas mãos ontem, sequer pareciam dedos femininos, não, não eram dedos femininos, talvez porque não era eu que estava segurando aquele pedaço podre de mim, o que restou do resto de minhas vísceras em chamas.
            A tempestade aumentou, minha casa a pouco fora consumida pelo fogo, mesmo debaixo daquela tempestade, eu via minha esposa ser consumida por um fogo branco marfim, ela ia sendo lançada sobre os ares e aquele manto de fogo branco a fazia parecer um anjo com asas e tudo e eu tentava pendurar-me nos filetes de chamas que luziam ao redor dela, mas sempre que conseguia segurar firme num deles, mesmo com minhas mãos em chamas, o que me impedia de ir era a tempestade que só apagava o fogo de minhas mãos, o fogo branco marfim dela incandecentemente intacto e os langos de faíscas dos meus dedos a se apagarem com o primeiro pingo.
            O motorista freia bruscamente o ônibus, eu sou arremessada sobre a poltrona da frente, acordei sem querer, uma chuva fina molhava a janela a minha direita, formando no embaçado do vidro, veredas, como que a escrita certa e indecifrável de Deus, sendo lapidada por aquelas infinitas linhas tortas, e eu agora era uma miniatura de qualquer coisa me embrenhando por aqueles caminhos, parecia que eu patinava no gelo sob uma intensa torrente e quando eu chequei na base do vidro, senti um odor insuportável de vômito, acho que caí num canyon, por onde, ao invés de um rio de velozes águas, permaneciam poços de restos de comida liquidificados pelo organismo de um qualquer, talvez pelo meu.
            O cobrador bate no meu braço, é a parada final senhora, obrigada, é o cansaço. Eu agora abraço a minha companheira, ela diz que me ama, e sorrir, eu ponho meu prato no microondas, sento no sanitário, agora eu dou descarga e vejo meu útero infértil sendo digerido buraco negro a dentro.

Carta à ninguem.

“Eu consigo, tudo de ruim eu consigo. Eu não tô culpando ninguém. Pelo amor de deus, Cala a boca! Eu só não tô raciocinando direito,” meu coração ta palpitando, minha cabeça repentinamente dói, de vez em quando dar aquela dorzinha nas laterais acima das orelhas, me vem a cabeça uma vontade absurdamente incontrolável de... sei lá... de matar... ou de... morrer, de socar a parede que até não existam mais dedos ou paredes pra socar, gritar até minha garganta se desintegrar em sangue... eu sei que não sou uma pessoa normal, eu nunca fui uma pessoa normal, e talvez o que mais me aflija seja justamente o fato de eu ter consciência disso, louco que é louco não sabe que é louco, mas eu sei que sou louco, sendo assim não sou apenas louco, sou um louco que sabe que é louco, e isso é muito pior, é assustador saber, ou achar que sabe, como sua mente estar funcionando, saber o que estar acontecendo com você, saber que aquela sua maneira de se comportar tem uma relação com algo que aconteceu antes, saber que um psicólogo ou um terapeuta poderia te ajudar, mas ao mesmo tempo não querer ser ajudado, pois é, eu sei qual é, ou quais são os meus problemas, sei onde ou como encontrar a cura, mas eu não quero, eu prefiro continuar esse monstro que eu sou, esse que agora estar digitando esse merda desse texto com tanta força que chega quase a quebrar o teclado, a propósito, por falar nesse texto, se interessa a alguém saber o porque dele, não é por nada em específico, eu só queria um refúgio, falar com alguém que não fosse gente, não que quem esteja lendo não seja gente, mas quando se escreve, você não sabe quem tá lendo, aliás, não sabe sequer se aquilo vai ser lido ou não, não se conhece o seu, como dizem os críticos, “interlocutor”, então era justamente com esse “ninguém” que eu queria conversar, um Zé Ninguém conversando com um “ninguém”, algo que combina bastante, e por falar em “ninguém” lembrei agora daquele famoso auto de Gil Vicente que fala do embate de “Ninguém” com “Todo Mundo”, em que se conclui que “Todo Mundo” só pensa em dinheiro e “Ninguém” pensa em ajudar, foi genial o português nessa obra, mas eu fico imaginando se fosse Freud que tivesse escrito tal peça, seria o mesmo embate de ninguém com todo mundo, mas as metas seriam outras: felicidade e sofrimento, e a conclusão seria que “Todo Mundo” quer felicidade e “Ninguém” quer sofrimento, mesmo sabendo que no mundo em que vivemos ocorre justamente o contrário “Ninguém” tem felicidade e “Todo Mundo” sofrimento. puta que pariu! um grande amigo já havia me dito que ler Freud é maravilhoso, mas que quando a gente tá fudido... é foda você saber que por mais que você tente o “não-sofrer” o sofrimento é inevitável, se você tá bem aquilo que você tá lendo se torna algo distante, algo meramente científico, parte apenas de seu trabalho de sua pesquisa, mas, se você lê o “Mal-estar na Civilização” tando sem dinheiro, ou passando por qualquer outro grande problema, volto a dizer: é foda! olha aí, tá vendo?! funcionou conversar com “ninguém”, já relaxei, dez minutos atrás, quando comecei a escrever esse texto, eu tava, você lembra, querendo dar murro nas paredes, e agora, até a respiração já não tá mais tão ofegante, o sangue tá correndo mais tranquilo nas veias, poderia até dizer que estou... é... estou bem. valeu pela atenção Seu Ninguém, ou Dona Ninguém, se é que algum de vocês existem, espero contar com vocês, quando minhas crises de doido voltarem. Fuuuuuuuuuuuui.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os Sonolentos


A tropa avançara mais do que devia. Homens, mulheres e crianças adormeciam no front, eu corria com uma metralhadora na mão, mas não conseguia atirar em ninguém, me perdi da minha tropa, acho que estava meio míope e a tropa que outrora avançava agora estava calada, ou era eu que estava surdo?, não sei bem, percebo que minha metralhadora volta a funcionar e miro em uma criança que dorme, a mulher ao seu lado sem um dos braços chora, pede água, vira pra o lado mais confortável e dorme e sonha com os mais belos anjos do céu rodeados de fogo frio por todos os lados, a criança que tenho a arma mirada em seu peito, também dorme, minha audição volta, ergo a cabeça e quando retorno o olhar pra ele percebo uma bala atravessar sua cabeça, procuro o assassino, não há assassino em parte alguma, apenas deuses e deusas camuflados, cantando os mais belos cânticos de Davi, minhas mãos ficam dormentes e meus dentes começam a cair e eu agora sou apenas uma máquina feita pra andar e ouvir, saio vagando rumo a colina distante e finalmente caio, ao meu lado a grama verde e rala dos campos floridos de uma primavera européia, sob minha cabeça um céu azul de um domingo qualquer, agora essa chuvinha fina, percebo que estou ficando louco, uma tempestade cai sobre mim e por mais que eu olhe não vejo a fonte, não existe mais nuvens no céu, quando estou quase adormecendo me tremendo de frio uma pistola que parece de brinquedo cai junto com a chuva em meu peito, aquele é agora o brinquedo que nunca tive, me sinto com 4 ou 5 anos de idade, e quantos anos eu tenho mesmo?, já não sei! Engatilho a arma de brinquedo atiro no meu pé esquerdo... não era de brinquedo... choro incontidamente em uma súplica desesperada por um colo de mão, e finalmente quando me canso, passo a ser o velejador do barco em que todos já me esperam e finalmente durmo...

Reflexo

A menina não quer sair de lá, não tem mais que 16, o garoto que estava com ela nem barba tem, o soldado manda chamar a mãe que mora do outro lado da rua, quando esta chega a menina chora e rir da mãe que cospe nela e vai embora, o soldado pede que pelo menos ela se vista e oferece um lençol pra ela se cobrir, ela não o atende, se levanta, entra e senta no banco traseiro do camburão, ao seu lado uma arma a reluzir o sol no seu rosto, depois de pegar a arma provavelmente ela ficara na dúvida “o policial ou eu?”, nessa hora me viro e ouço dois tiros.

Aborto

Acordei meio tonta como todos os dias, e cambaleando pelas paredes, entrei no banheiro e hoje diferente dos outros dias eu vomitei, vomitei muito, algo meio amarelo com gosto amargo, escovei meus dentes, mas o hálito ruim não saiu, sentei na mesa pra tomar café, ele, que levantara antes de mim, sorriu e mandou um beijo estalado sem se levantar, eu mal comi me levantei tirei meu pijama branco e botei um vestido estampado, sai sem dizer pra onde ia, a barriga apesar de pesada não me impedia de nada, absolutamente nada, entrei num beco que não sabia aonde ia dar, dois rapazes morenos me seguiam, acho que queriam me assaltar, sorri daquele jeito pra eles que estranharam mas gostaram, beijei a ponta do queixo do mais alto, o outro me agarrou por trás pegando na barriga, virei beijei o mais baixo na boca e sai, eles tomaram o caminho inverso ao meu, a rua que eu dessa vez tomara já estava bem movimentada, eu meio descabelada e com aquela barriga chamava a atenção dos transeuntes, eu era bonita, dei a volta no quarteirão e voltei pra o prédio, dei uma beliscadinha na bunda do porteiro, velho conhecido, entramos eu e minha amiga no elevador, passei direto pra o andar dela e entramos em seu ap já nos despindo sôfregas, no sofá as nossas mãos nos governava, ela adorava passar as mãos na minha barriga, eu adorava os pés dela, gozamos e gritamos muito alto, voltei pra o meu ap, ele assistia TV, tava de férias, sentei no colo dele e o beijei, ele conseguiu me levar até o quarto, nos braços apesar daquela barriga, fizemos do jeito que ele mais gostava, de pé, fui almoçar fora, no barzinho da esquina, quando voltei ele tava comendo batata frita com catchup, depois disso foi dormir, fui até a cozinha lavei alguma coisa na pia e fui pra o quarto só de calcinha, ele era diferente, tive vontade de matá-lo, ele acordou e disse que sonhou com o parto eu sorri e sai, coloquei uma música pra tocar e dancei feito uma pessoa normal, ele também dançava no quarto só de cueca, já tava me irritando, eu aumentei o som da música e dancei mais agitada, fui até a cozinha e peguei o batedor de bife, e comecei a cantar como se o batedor fosse o microfone, quando ele virou de costas eu bati no meio do crânio dele com todas as minha forças, ele caiu sem sangrar, abri a janela, encostei na varanda, cantando com meu microfone de bater bife e dançando só de calcinha me atirei do sétimo andar, durante a queda o bebê chutou, eu sorri e chorei sem querer...

Vou Contar Tudo Pra Minha Mãe

Logo que acordou a menina correu desesperada para o quarto da mãe, que a essa hora da manhã já havia saído pra trabalhar, a empregada tava na cozinha, terminando de tirar a mesa do café da manhã. Trabalhando aparentemente com muita pressa a moça deixou cair um copo de vidro que se espedaçou em mil pedaços ao tocar no chão. A menina que agora já estava na porta da cozinha ria muito da empregada, “Vou contar tudo pra minha mãe” virou-se e foi pra sala assistir TV.
            Num dos outros quartos da casa, o irmão, cinco anos mais velho que a menina, acordara e ao passar pela porta da cozinha com destino ao banheiro, percebeu o embaraço da empregada com os cacos que tomavam conta de grande parte do piso da cozinha. “Quer ajuda?!” “Não!” O rapaz saiu do banheiro e dessa vez sem falar nada entrou na cozinha e juntou os restos dos cacos que ainda ocupavam a pobre empregada, “Obrigada” “Ah! Deixa de ser boba” e sai.
            Na casa só havia eles três, a empregada ficava só até a hora do almoço, a menina estudava à tarde e o rapaz trabalhava meio expediente em uma loja, mais precisamente das 15 às 20 horas. E a mãe, que era viúva, ficava o dia todo em seu escritório e raramente almoçava em casa.
            Depois de arrumar toda a cozinha a empregada deveria arrumar os quartos dos meninos, mas por preguiça ou por mera vontade sentou-se à mesa e começou a folhear uma revista qualquer, talvez de fofoca ou de culinária. A menina que sentira sede ou enjoara de assistir TV, vai até a cozinha comer algo ou tomar um copo d’água, e ao ver a pobre moça em seu impróprio descanso, pula e grita feito uma louca, “Vou contar tudo pra minha mãe” nem comeu nem bebeu água e voltou pro sofá.
            Ela agora espanava a mesa do computador dele que mesmo com a presença dela não saiu da cama onde lia um romance qualquer. Ela estava de costas pra ele e ao perceber uma cueca jogada no chão ao lado do estabilizador se abaixa bruscamente pra apanhá-la, quando se ergue percebe que ela olha descaradamente pra sua bunda, ela fingiu que não percebeu e passou suavemente a mão na própria bunda pra abaixar a saia que levantara um pouco. Pronto, a atitude dos dois foi o suficiente.
            Já se aproximara da hora do almoço e a menina gritou da sala “Tô com fome!” e ao sentir que ninguém havia respondido correu pra cozinha, estranhou o fato da empregada não está lá e saiu a procurá-la pelos outros cômodos da sala, procurou nos dois banheiros, na lavanderia, em seu próprio quarto e nada, o único lugar que ela não havia tentado era no quarto do irmão, pois ele detestava que ela entrasse no quarto dele, mas movida pela necessidade, abriu levemente a porta olhou pra cadeira do computador e viu uma blusa e uma calcinha pendurada no encosto e por fim escancarou de vez a porta e com uma mistura de susto e surpresa falou levando a mão à boca, pausadamente, quase como um suspiro  “ V o u  c o n t a r  t u d o  p r a  m i n h a  m ã e . . . ” e saiu.
            Os dois passaram ainda uns dez minutos no quarto, tempo mais que suficiente pra pensarem no que fazer dali por diante. Ele saiu do quarto segurando alguns lençóis dobrados e ela fora direto pra cozinha provavelmente pra preparar o almoço. A menina estava no banheiro com o telefone celular no ouvido direito, o irmão já entrou no banheiro dando um soco com a mão direita no lado esquerdo do rosto da menina que caíra de bruços no chão. O celular foi jogado na privada, e depois disso ele desenrolou dois lenços que estavam sobre os lençóis e amarrou os braços e a boca dela enquanto ela tentava dizer algo “Vou contar tudo pra m...”
            A empregada entrou no banheiro tremendo bastante com alguns instrumentos abarcados com suas duas mãos, ela trouxera faca, martelo de bater bife, isqueiro e um vidrinho de álcool, ela tentou dizer algo pro rapaz que imediatamente retrucou “Cale a boca sua vadia! É por causa de você que eu tô fazendo isso” e pegando o martelo começou a gritar com a garotinha que se debatia tentando dizer algo... A empregada saiu do banheiro e voltou alguns segundos depois com outra faca bem maior que a anterior e aparentemente bem mais afiada e ficou só observando o rapaz torturar a menina.
            Ele já estava decidido, destampou o vidro e espalhou álcool por todo o corpo da irmã, mandou a empregada afastar-se ela abraçou suas costas e os dois vieram andando de costas em direção à porta, ele tirou o isqueiro que havia colocado no bolso e sentiu um calor congelante invadir um ponto qualquer de seu corpo. A faca penetrara com muita facilidade o seu coração petrificado e ele caiu, primeiro de joelhos e ao tentar olhar pra trás caiu de bruços sobre a sua mão direita que ainda segurava o isqueiro.
            A empregada desamarrou os braços e a boca da criança que antes de qualquer coisa falou “Não se preocupe, Vou contar tudo pra minha mãe”.